
Terça-feira, 22 de abril. Meu dia começa cedo. Mamadeira, banho, fraldas... Brincadeiras. Geral na casa. Quando são dez horas, o interfone toca. É o vizinho do andar de baixo, quer falar sobre o vazamento no banheiro dele. Venho tentando resolver o problema há um mês. Meu faz tudo – pedreiro/eletricista/encanador - é ótimo, mas vive dando o cano. Promete que vai resolver o problema há semanas e não aparece. Eu espero. O vizinho também. O vazamento aumenta. O vizinho avisa que chamou seu próprio encanador e me comunica o prejuízo. Fazer o quê? Meu dia está apenas começando...
Ajeito uma salada e um congelado enquanto termino de arrumar o bebê. Deixo o bebê na vovó e sigo para o trabalho. Ainda no espírito sixties, vou cantando Let the Sunshine In, que toca no CD do carro. Chego na “firrrma” e espero por uma vaga na fila indiana de carros de funcionários, como faço todos os dias. Poderia parar mais longe e evitar a fila, mas a região é perigosa: um colega - jovem editor - foi assassinado em uma tentativa de assalto há um mês. Agora, há seguranças de moto que nos acompanham até o carro. Fico esperta, sou atenta. Mas tenho medo. Então, espero na fila. Vinte minutos se passam. Nada de vaga. Estou atrasada. Já é quase uma hora. Preciso trabalhar, a semana é mais curta por conta do feriado. Não tenho tempo. Aproveito o que sobra na fila de espera e arrumo minha bolsa. A bolsa é nova. Junto papéis, guardo comprovantes de gastos nos cartões, arrumo papéis soltos na agenda.
Finalmente chega minha vez. Consigo uma vaga ótima. Paro bem na frente. Hoje deve ser meu dia de sorte. Vou para a redação. Começo a trabalhar. Resolvo pendências. Tenho um tempinho, dou uma olhada na lição de árabe, quinta-feira tenho aula. Mais meia hora e volto à labuta. O dia está chato, preciso dar uma volta. Pego meu crachá e o dinheiro que tenho na carteira e vou passear na banca da frente. Olho revistas e como um salgado. Estranhamente, não compro nenhuma. Em geral, não resisto e sempre levo alguma. Hoje estou esquisita. Não quero revista. As que gosto, já li. As outras, não quero. Não me interessa a vida das celebridades e já tive minha dose de morbidez com o caso da menina. Chega! Pergunto quando ele recebe o próximo dvd de balé da coleção. Ele acha que é na próxima semana. Preciso ficar ali mais um pouco, ainda preciso espairecer antes de voltar, mas o céu está escuro, tudo ficou preto de repente. O vento fica forte, muito forte, agita as árvores. Meus cabelos estão em toda a minha cara. O celular toca. Atendo. É meu marido. Não escuto o que ele diz, o vento está muito forte, estou correndo de volta à redação antes que a chuva despenque. Abro a boca para falar e quase engulo uma folha. Tento ao mesmo tempo falar, segurar meu celular com uma mão e o cabelo com a outra, ou posso entrar parecendo uma desertora do exército americano em Bagdá. Pareço uma louca. Volto para a minha mesa. Lembro-me que tenho uma pendência com a Net. Há exatos um mês e dez dias, tento – em vão – cancelar um telefone que não pedi e que não uso. Na semana passada, consumi três horas do meu precioso e escasso tempo falando com atendentes. No final, pedindo pelo amor de Deus, não sei se por dó ou por cansaço, disseram que resolveriam meu problema. Mas teria que ligar de novo, após o feriado. É hoje. Ligo, preparada para o pior. A primeira tentativa não dá certo, a ligação cai. Já falei o tal código e expliquei o problema mais duas vezes. Tenho paciência. Hoje, eu penso, vou conseguir. Demora um pouco, mas consigo. Quase não acredito. Não é que estou com sorte mesmo?
Levanto, vou ao banheiro. O mundo caiu lá fora, mas agora a chuva diminuiu. Desvio de uma poça, mas ponho o pé em outra. Lá se vai minha sandália seca. Volto, pé molhado, escorregando no salto. Ué, não era meu dia de sorte? Não me aborreço. No computador, guardo uma foto do meu filho sorrindo, na praia, só para desanuviar momentos assim, de irritação plena. Sorrio também.
Sete e meia da noite. Hora de fechar a lojinha. Desligo o computador. Dia corrido, não consegui escrever uma linha para o blog. Não faz mal, tento escrever em casa. Aviso meu pai que em vinte minutos estarei na porta do prédio para pegar o bebê. No caminho, paro na farmácia. Compro coisas para o bebê e um remédio para minha irmã. Chego à rua. Penso em parar na frente da garagem, mas cheguei cedo e posso atrapalhar se ficar ali. Penso nos outros, tenho consideração, não quero atrapalhar ninguém. O lixeiro está passando. Há uma vaga do outro lado da rua, em frente à portaria. Paro ali, como já fiz tantas vezes. São oito e três. Estou sete minutos adiantada. Ligo e aviso meu pai que já cheguei. Estou cansada, quero chegar em casa logo. Acendo a luz do carro e começo a separar as compras da farmácia que vou deixar com meu pai. Nem penso que estou sozinha, que não se deve parar assim, menos ainda com a luz acesa. Mas faço isso todos os dias. Fico um pouco desatenta. Batidas no vidro da minha porta. Estou de costas, virada para o banco passageiro separando as coisas. Me viro, achando que são meu pai e o bebê fazendo uma brincadeira. Não são. É um revólver. Uma arma. Sim, é de verdade. É um assaltante. “Abre a porta, abre a porta”. “Vou abrir” - respondo, com as mãos para o alto em movimento lento, para que ele não tenha nenhuma reação repentina que possa me machucar. Ou pior, me matar. Destravo o carro, ele abre a porta. Enquanto tira meu relógio, diz: “Na moral, desce do carro”. Tenho medo. A arma está na minha cara. “Na moral” – respondo, usando a mesma linguagem, sem pensar, numa reação espontânea de pânico – “posso pegar minha bolsa?” “Não vai pegar nada”. Sem pensar, insisto: “Te dou o dinheiro, os cartões, preciso da minha agenda, é meu trabalho... só meu caderno, por favor...”. “Sai, sai, sai”. Saio. Tenho medo. Posso morrer. Minha vida é mais importante. Ele arranca com meu carro, minha bolsa, meus remédios, minhas coisas. Levou, em dois minutos, tudo que é meu. O que me custou caro. O que dei duro pra ter. E que custou a ele apenas me apontar uma arma.
Sete e meia da noite. Hora de fechar a lojinha. Desligo o computador. Dia corrido, não consegui escrever uma linha para o blog. Não faz mal, tento escrever em casa. Aviso meu pai que em vinte minutos estarei na porta do prédio para pegar o bebê. No caminho, paro na farmácia. Compro coisas para o bebê e um remédio para minha irmã. Chego à rua. Penso em parar na frente da garagem, mas cheguei cedo e posso atrapalhar se ficar ali. Penso nos outros, tenho consideração, não quero atrapalhar ninguém. O lixeiro está passando. Há uma vaga do outro lado da rua, em frente à portaria. Paro ali, como já fiz tantas vezes. São oito e três. Estou sete minutos adiantada. Ligo e aviso meu pai que já cheguei. Estou cansada, quero chegar em casa logo. Acendo a luz do carro e começo a separar as compras da farmácia que vou deixar com meu pai. Nem penso que estou sozinha, que não se deve parar assim, menos ainda com a luz acesa. Mas faço isso todos os dias. Fico um pouco desatenta. Batidas no vidro da minha porta. Estou de costas, virada para o banco passageiro separando as coisas. Me viro, achando que são meu pai e o bebê fazendo uma brincadeira. Não são. É um revólver. Uma arma. Sim, é de verdade. É um assaltante. “Abre a porta, abre a porta”. “Vou abrir” - respondo, com as mãos para o alto em movimento lento, para que ele não tenha nenhuma reação repentina que possa me machucar. Ou pior, me matar. Destravo o carro, ele abre a porta. Enquanto tira meu relógio, diz: “Na moral, desce do carro”. Tenho medo. A arma está na minha cara. “Na moral” – respondo, usando a mesma linguagem, sem pensar, numa reação espontânea de pânico – “posso pegar minha bolsa?” “Não vai pegar nada”. Sem pensar, insisto: “Te dou o dinheiro, os cartões, preciso da minha agenda, é meu trabalho... só meu caderno, por favor...”. “Sai, sai, sai”. Saio. Tenho medo. Posso morrer. Minha vida é mais importante. Ele arranca com meu carro, minha bolsa, meus remédios, minhas coisas. Levou, em dois minutos, tudo que é meu. O que me custou caro. O que dei duro pra ter. E que custou a ele apenas me apontar uma arma.
Um vizinho que chegava de carro percebeu e foi atrás. Não consegue seguir meu carro, mas encontra uma viatura e avisa os policiais. Eles vêm, conversam comigo, anotam o número da placa e saem.
Meu pai aparece com o bebê. Estou desnorteada. Desesperada. Aliviada por ele e o bebê não terem chegado antes. Atônita. Subo. Começo o trabalho: cancelo os cartões. Celular. Talão de cheques. Choro. O medo passou. Estou com raiva. Muita raiva. Começo a contabilizar o prejuízo. O carro tem seguro. A cadeirinha do bebê não. Filho da puta. Minha bolsa nova. Barata, mas gostei dela. Filho duma puta. O relógio, presente da minha mãe. Gostava dele. Filho da puta. A carteira, sem nenhum dinheiro. Não levou nem “dois real” em cash. O dinheiro está no meu bolso, desde a hora em que saí para ir à banca. Burro. Filho da puta. Cartões de banco. Cancelo todos. Meu caderno da aula de árabe e a gramática da língua árabe. Filho da puta. Minha palm. É velha, modelo antigo, é barata e tenho back-up, mas todos os telefones e dados importantes estão ali. Filho da puta. Óculos de sol. Bolsinha de mulher: elástico de cabelo, comprimido pra dor de cabeça, absorvente e batom. Filho da puta. Celular. Bloqueio a linha. Estojo de lápis, canetas, borracha e apontador. Canetas coloridas que adoro. Filho da puta. Bloquinhos de anotações – mania de jornalista. Ah, putz, o CD com a trilha do filme Hair, presente do meu pai há milênios e um dos meus favoritos. Filho da puta. E finalmente, lembro do pior prejuízo: minha agenda - diário (de papel, claro), com anotações, impressões, escritos, compromissos... Filho duma grande puta!! Pronto, xingar ajuda. E muito. Principalmente em voz alta e enchendo a boca.
Vou à delegacia. Demora, mas consigo fazer o B.O. Exausta, volto pra casa. Choro. Tomo um chá, como faço quase todas as noites, mas hoje escolho camomila. Exaurida de forças e ânimo, vou me deitar. Antes, olho meu filho e, pela primeira vez, penso no que todos à minha volta repetem desde a hora do assalto: poderia ter sido pior... É... Poderia ser minha vida, a do meu filho, poderia ter levado um tiro e ficado paraplégica. Tetraplégica. Poderia ser seqüestro relâmpago. Dos males o menor, penso, tentando me convencer do que todo mundo diz. Em vão. Fico ainda mais pau da vida. Pensamento de brasileiro. Acomodados. Conformados. Sempre podia ser pior.
Meu pai aparece com o bebê. Estou desnorteada. Desesperada. Aliviada por ele e o bebê não terem chegado antes. Atônita. Subo. Começo o trabalho: cancelo os cartões. Celular. Talão de cheques. Choro. O medo passou. Estou com raiva. Muita raiva. Começo a contabilizar o prejuízo. O carro tem seguro. A cadeirinha do bebê não. Filho da puta. Minha bolsa nova. Barata, mas gostei dela. Filho duma puta. O relógio, presente da minha mãe. Gostava dele. Filho da puta. A carteira, sem nenhum dinheiro. Não levou nem “dois real” em cash. O dinheiro está no meu bolso, desde a hora em que saí para ir à banca. Burro. Filho da puta. Cartões de banco. Cancelo todos. Meu caderno da aula de árabe e a gramática da língua árabe. Filho da puta. Minha palm. É velha, modelo antigo, é barata e tenho back-up, mas todos os telefones e dados importantes estão ali. Filho da puta. Óculos de sol. Bolsinha de mulher: elástico de cabelo, comprimido pra dor de cabeça, absorvente e batom. Filho da puta. Celular. Bloqueio a linha. Estojo de lápis, canetas, borracha e apontador. Canetas coloridas que adoro. Filho da puta. Bloquinhos de anotações – mania de jornalista. Ah, putz, o CD com a trilha do filme Hair, presente do meu pai há milênios e um dos meus favoritos. Filho da puta. E finalmente, lembro do pior prejuízo: minha agenda - diário (de papel, claro), com anotações, impressões, escritos, compromissos... Filho duma grande puta!! Pronto, xingar ajuda. E muito. Principalmente em voz alta e enchendo a boca.
Vou à delegacia. Demora, mas consigo fazer o B.O. Exausta, volto pra casa. Choro. Tomo um chá, como faço quase todas as noites, mas hoje escolho camomila. Exaurida de forças e ânimo, vou me deitar. Antes, olho meu filho e, pela primeira vez, penso no que todos à minha volta repetem desde a hora do assalto: poderia ter sido pior... É... Poderia ser minha vida, a do meu filho, poderia ter levado um tiro e ficado paraplégica. Tetraplégica. Poderia ser seqüestro relâmpago. Dos males o menor, penso, tentando me convencer do que todo mundo diz. Em vão. Fico ainda mais pau da vida. Pensamento de brasileiro. Acomodados. Conformados. Sempre podia ser pior.
Pense bem: as pessoas que são responsáveis por usar o dinheiro dos seus impostos – aqueles que você paga direitinho, com o suor do seu trabalho – para garantir a sua segurança, a sua saúde e a sua educação, não garantem nada disso a você. Você sabe, os políticos. Usam o dinheiro que também é seu, meu, da mãe do ladrão, em benefício próprio. Fazem farra com cartões de crédito. Não o seu. Mas quem paga é você. E você não tem direito à educação decente, à saúde decente e muito menos, à segurança. Você vive inseguro. Com medo. Acaba sendo vítima de gente que não tem acesso a nada daquilo que você tem. Eles também querem ter. Te roubam. Você não tem culpa. Talvez nem ele. Mas você tem ódio dele e acha que ele é um filho da puta mesmo assim. Filhos das putas ele, a elite que perpetua o sistema que cria gente assim, os políticos que nada fazem por isso. Você só tem ódio. E indignação. Amaldiçoa a sociedade apática que permite tudo isso, amaldiçoa seu país, amaldiçoa tudo.
No fundo, sabe, de verdade, que podia ser pior. Tem raiva porque sabe que também podia ser melhor. Temos tudo para ser um país melhor. Mas não somos. Somos isso.
Indignada, chorando, só quero descansar. Vou ficando mais calma. Meu marido diz que não levaram minhas coisas. Que minhas coisas estão dentro de mim. É verdade. Não sou uma pessoa materialista. O que me incomoda mais, agora, é ter a vida exposta: a bolsa, as fotos, as anotações. Tudo jogado por aí. Não roubaram minhas coisas. Violaram minha intimidade.
Estou triste. Choro mais um pouco. Já chequei a porta da rua para ver se está trancada algumas vezes. Agora estou muito, muito cansada. São três da manhã. Vou ao quarto do bebê. Olho meu filho de novo. Ainda estou indignada, mas já não me sinto tão mal. O que tenho de melhor está aqui, ninguém levou. Está comigo. Está dentro de mim.
No fundo, sabe, de verdade, que podia ser pior. Tem raiva porque sabe que também podia ser melhor. Temos tudo para ser um país melhor. Mas não somos. Somos isso.
Indignada, chorando, só quero descansar. Vou ficando mais calma. Meu marido diz que não levaram minhas coisas. Que minhas coisas estão dentro de mim. É verdade. Não sou uma pessoa materialista. O que me incomoda mais, agora, é ter a vida exposta: a bolsa, as fotos, as anotações. Tudo jogado por aí. Não roubaram minhas coisas. Violaram minha intimidade.
Estou triste. Choro mais um pouco. Já chequei a porta da rua para ver se está trancada algumas vezes. Agora estou muito, muito cansada. São três da manhã. Vou ao quarto do bebê. Olho meu filho de novo. Ainda estou indignada, mas já não me sinto tão mal. O que tenho de melhor está aqui, ninguém levou. Está comigo. Está dentro de mim.
Finalmente, consigo dormir.
3 comentários:
Bom, já tinha conhecimento do fato. O que me espantou de tudo isso foi a aula de árabe. Esta parte você tinha omitido.
Beijos,
Tati.
Postar um comentário