
Tenho uma amiga que uma vez disse que tem gente que não precisa viajar. Não sabe viajar, só gasta dinheiro e não entende nada. Podia ter ficado em casa, dava na mesma. Quando ela fez esse comentário, nós duas fazíamos parte de um grupo de estudantes que passaria uma temporada na França através de um programa de intercâmbio e aquela era nossa primeira noite em Paris. Tudo o que queríamos era andar pelas ruas, ver os franceses, sentar nos cafés, beber vinho, olhar, viver e sentir a cidade. Quando saímos para o passeio, animadas e devidamente encapotadas, escutamos alguns colegas reclamando do frio e dizendo que iriam procurar um restaurante ou bar brasileiro. Era o primeiro dia fora do nosso país. Dá pra acreditar?
Também conheci um casal que foi passar uma temporada romântica em uma das mais belas cidades do litoral brasileiro. Ficaram em um resort localizado na praia mais badalada. Até aí, ok. Mas não saíram do tal hotel!!!! Tudo bem que casalzinho novo quer mais é namorar, mas eles não deram nem uma voltinha pra saber que cara a cidade tinha! Fiquei passada com a total falta de interesse e curiosidade da dupla em ver o lugar onde estavam.
Sei de um caso, ainda pior, em que o tal resort ficava em um país super interessante, de cultura local riquíssima, povo vibrante, um lugar cheio de atrativos – e a pessoa passou a temporada todinha no hotel. Lamentável! Aí, como diz minha amiga, não precisa viajar. Melhor ficar em casa.
Sempre quis entender por que as pessoas viajam. O que pensam encontrar, o que esperam viver, o que querem com aquela experiência. Desconfio que muita gente viaja só porque essa é mais uma forma de consumo. Como se consome roupa, carro, comida, bebida. O sujeito não tem interesse algum em ver o mundo, as pessoas, conhecer outra cultura de verdade. Não aproveita nadica de nada o passeio. Reclama da comida, do hotel, acha o povo feio, mal educado (mesmo sem fazer nenhum esforço pra se misturar) e depois chega falando que adorou a viagem e que o povo é maravilhoso. O destino é sempre algum daqueles mais óbvios. Viagens pelo Brasil não fazem parte do roteiro desse povo. Os que se enquadram nessa categoria não acham graça em viagens tupiniquins. Não consigo entender o porquê. Perdem cada lugarzinho incrível que só existe aqui, na terra brasilis...
Também conheci um casal que foi passar uma temporada romântica em uma das mais belas cidades do litoral brasileiro. Ficaram em um resort localizado na praia mais badalada. Até aí, ok. Mas não saíram do tal hotel!!!! Tudo bem que casalzinho novo quer mais é namorar, mas eles não deram nem uma voltinha pra saber que cara a cidade tinha! Fiquei passada com a total falta de interesse e curiosidade da dupla em ver o lugar onde estavam.
Sei de um caso, ainda pior, em que o tal resort ficava em um país super interessante, de cultura local riquíssima, povo vibrante, um lugar cheio de atrativos – e a pessoa passou a temporada todinha no hotel. Lamentável! Aí, como diz minha amiga, não precisa viajar. Melhor ficar em casa.
Sempre quis entender por que as pessoas viajam. O que pensam encontrar, o que esperam viver, o que querem com aquela experiência. Desconfio que muita gente viaja só porque essa é mais uma forma de consumo. Como se consome roupa, carro, comida, bebida. O sujeito não tem interesse algum em ver o mundo, as pessoas, conhecer outra cultura de verdade. Não aproveita nadica de nada o passeio. Reclama da comida, do hotel, acha o povo feio, mal educado (mesmo sem fazer nenhum esforço pra se misturar) e depois chega falando que adorou a viagem e que o povo é maravilhoso. O destino é sempre algum daqueles mais óbvios. Viagens pelo Brasil não fazem parte do roteiro desse povo. Os que se enquadram nessa categoria não acham graça em viagens tupiniquins. Não consigo entender o porquê. Perdem cada lugarzinho incrível que só existe aqui, na terra brasilis...
Viajar é uma arte, como escreve o divertido Mr Miles na coluna do caderno de viagem do Estadão. É necessário despir-se um pouco das próprias referências para entender e apreciar a cultura que se está conhecendo. Pode ser uma experiência muita rica. Ou não acrescentar nada, para quem não sabe aproveitar o momento.
Companhia de viagem é item fundamental. Pessoas desanimadas, que se cansam de andar, não têm interesse em explorar, ou fazem muitas exigências são a maior barca furada. As que gostam de andar em grupos numerosos, falando alto, fazendo piadas e comentários grosseiros em português sobre pessoas e costumes típicos, achando que ninguém no outro país entende são o fim da linha!
Claro que, top one, categoria hors concours do verdadeiro programa de índio é excursão. Daquelas em grupo enorme, com horários e programas pré-determinados, que “faz” vinte e dois países em quinze dias. O que pode ser pior que isso? Nessa categoria, juro que ouvi do guia de um grupo de brasileiros em excursão que se preparava para entrar no British Museum, em Londres: “Vocês têm quarenta minutos para visitar o museu, depois vamos para a London Bridge”. Quarenta minutos não dá nem pra ver um terço da galeria egípcia do British. Eu, que estudava em na universidade a uma quadra do museu e costumava ir andar por lá quando precisava pensar, me inspirar, descansar, ou fugir da chuva e do frio, fiquei com pena de quem tinha pago caro pra viajar daquele jeito. Não adianta, como diz uma frase creditada a Tolstoi, “Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira”.
Por essas e muitas outras é que adoro ler bons relatos de viajantes. Daqueles que sabem das coisas. Ou melhor, que sabem procurar e descobrir coisas. Esse mês fui surpreendida pelo que considero a melhor matéria de viagem dos últimos anos, talvez a melhor que já li. É do Xavier Bartaburu, ex-editor e atual colaborador da revista Terra. Xavier percorreu todo o Mali até um lugar perdido no meio do Saara, tão lendário que duvidavam se sua existência: Timbuctu. A matéria, primorosamente escrita, começa com a chegada do jornalista à capital do país, Bamaco. A partir dali, são 900 quilômetros de jipe, de barco pelo Níger, comendo poeira e encontrando algumas das vinte etnias que habitam o Mali – os mambaras, os bobos, os bozos, os songhais, os fulanis e, finalmente, os tuaregues de Timbuctu. Pelo relato, ilustrado por fotos espetaculares de Xavier, acompanhamos todo o roteiro da viagem: vamos descobrindo com ele um pouco da história do país (ex-colônia francesa) e somos apresentados a um mundo peculiar em que convivem o Islamismo e práticas religiosas primitivas como o animismo – dividindo o território em perfeita e curiosa harmonia. No fim do texto, Xavier partilha seu encontro com Timbuctu e as descobertas que são possíveis com esse tipo de experiência. Ele diz: “De todas as descobertas contidas numa viagem, é provável que a do destino final seja a menos relevante.”
Por essas e muitas outras é que adoro ler bons relatos de viajantes. Daqueles que sabem das coisas. Ou melhor, que sabem procurar e descobrir coisas. Esse mês fui surpreendida pelo que considero a melhor matéria de viagem dos últimos anos, talvez a melhor que já li. É do Xavier Bartaburu, ex-editor e atual colaborador da revista Terra. Xavier percorreu todo o Mali até um lugar perdido no meio do Saara, tão lendário que duvidavam se sua existência: Timbuctu. A matéria, primorosamente escrita, começa com a chegada do jornalista à capital do país, Bamaco. A partir dali, são 900 quilômetros de jipe, de barco pelo Níger, comendo poeira e encontrando algumas das vinte etnias que habitam o Mali – os mambaras, os bobos, os bozos, os songhais, os fulanis e, finalmente, os tuaregues de Timbuctu. Pelo relato, ilustrado por fotos espetaculares de Xavier, acompanhamos todo o roteiro da viagem: vamos descobrindo com ele um pouco da história do país (ex-colônia francesa) e somos apresentados a um mundo peculiar em que convivem o Islamismo e práticas religiosas primitivas como o animismo – dividindo o território em perfeita e curiosa harmonia. No fim do texto, Xavier partilha seu encontro com Timbuctu e as descobertas que são possíveis com esse tipo de experiência. Ele diz: “De todas as descobertas contidas numa viagem, é provável que a do destino final seja a menos relevante.”
É isso. Esse é o espírito. Falou. E disse!
Ps.: A foto (linda!) que reproduzo aqui não é do Xavier, é da National Geographic e mostra uma família tuareg de Timbuctu (em inglês, Timbuktu).
Ps.: A foto (linda!) que reproduzo aqui não é do Xavier, é da National Geographic e mostra uma família tuareg de Timbuctu (em inglês, Timbuktu).
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