
1968 nunca esteve tão em pauta. Esse mês, uma porção de jornais e revistas resolveu passar a limpo os acontecimentos daqueles turbulentos meses que há 40 anos chacoalhavam o mundo. Li matérias dissecando o tema nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. A revista História Viva desse mês traz um dossiê interessantíssimo sobre o assunto. E uma exposição no Sesc Vila Mariana promete revisitar a época em filmes, fotos, músicas e documentários. Aliás, será no Sesc o lançamento - até agora prometido para 14 de maio - da caixa com os livros de Zuenir Ventura: 1968 - o ano que não terminou (relançado) e o novo 1968 - o que fizemos de nós?
Zuenir esteve ontem no Roda Viva falando sobre o período e trazendo a discussão para os dias de hoje. Uma pergunta foi repetida por todos os entrevistadores: o que ficou da época? E como comparar o jovem de hoje ao daqueles tempos?
Na comparação, os jovens de hoje aparecem como um pouco alienados, sem uma causa. Opinião com a qual Zuenir não concorda. E sobre aquela juventude idealista e engajada de 60/70, disse algo que sempre foi minha opinião também: do ponto de vista político, era muito fácil escolher um lado. O mundo vivia a Guerra Fria. O Brasil vivia uma ditadura militar. Num cenário polarizado como aquele, os jovens escolheram um lado e partiram pra briga. Convenhamos que ter uma causa naquele momento era fácil. A causa estava ali, era só abraçar.
Um momento em que explodiu o desejo de lutar pelas liberdades: política - aqui contra a ditadura, na Europa Ocidental e nos Estados Unidos contra o Imperalismo que levava a mocidade norte-americana ao Vietnã, de expressão, de comportamento, ideológica... Nas manifestações culturais, um momento de absoluta inovação e criatividade. A música, o cinema, o teatro, a literatura e as artes visuais viram surgir movimentos diferentes de tudo o que havia sido feito até então. E referência para tudo o que veio depois.
Mas não foi só na política e na cultura que os jovens da geração dos meus pais queriam ser livres. Foi, acima de tudo, nos costumes, no comportamento. Afinal, com a pílula e o movimento hippie, aqueles jovens puderam finalmente experimentar algo que a geração anterior à deles não conhecia: um contato verdadeiro com o desejo e a expressão livre desse desejo. E esse é, para mim, o melhor daquela geração meia-oito. Mesmo num mundo de repressão e censura aquela foi uma geração em que o jovem foi ou buscou ser, acima de tudo, livre. Por trás dos ideais de paz e amor, do make love not war, existia uma relação natural com a vida, com as vontades e, acima de tudo, com o próprio corpo.
De lá pra cá, só perdemos nessa seara. Ou você já esqueceu como eram os filmes e as revistas da era pré-photoshop? Hoje o jovem é escravo. Vive a vida ditada pelos manuais: como se relacionar, como conseguir um emprego, como agir na carreira, como conquistar o sexo oposto, como ter o corpo perfeito. Como se perfeição fosse isso, corresponder a uma série de itens ditados por uma sociedade que não respeita o que é particular de cada um. Como se a vida só fosse possível dentro do mundo das regras, como se a felicidade estivesse atrelada a uma infinidade de pré-requisitos...
O jovem de hoje, ao contrário do daquela geração, está preso ao que acredita que deve ser. Perdeu a espontaneidade, vive o mundo do reality show. Não basta ser. Como a mulher de César, tem que parecer. Nesse sentido, como escreveu uma vez Contardo Calligaris, tem muita gente acreditando piamente que ser feliz se mede por quanto se é invejado. Pensamento perverso corroborado pela indústria de celebridades, que cria uma ilusão de que quem tem dinheiro, fama, poder, bens de consumo e está dentro de alguns padrões estéticos é feliz.
Que triste! Onde foram parar os ideais daquela geração hippie que acreditava no caminho da aceitação do outro e do respeito às diferenças? Na busca da harmonia - consigo, com o próximo e com o planeta? O que aconteceu com a turma que queria viver o amor livre sem achar que o prazer estivesse ligado a um corpo construído com silicone e lipo?
Que pseudo-liberdade é essa que aprisiona, escraviza, que dita modelos de vida idealizados e irreais? Que cultua uma sociedade do espetáculo, em que qualquer preço se paga por quinze minutos de fama? Tudo na vida desse jovem é feito para parecer aos olhos do outro. Esse jovem, mais do que nunca, é prisioneiro do olhar do outro.
Conheço muita gente da minha idade (e já nem somos tão jovens assim, afinal como confiar em alguém com mais de 30?) que queria ter vivido os anos 60 para ter vivido a agitação política, para ter lutado contra o regime. Já eu gostaria mesmo é de ter experimentado a vida sem regras e padrões, sem tanto consumo, sem amarras, sem modelos...
Se há algo que, infelizmente, terminou com a geração de 68, foi essa relação tão estreita com a vontade, com o desejo de experimentar, de existir. Simplesmente.
PS.: Pra entrar no clima: http://www.youtube.com/watch?v=fhNrqc6yvTU&feature=related
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