quarta-feira, 4 de março de 2009

SANTO REMÉDIO




Uma vez li em um livro do Frei Betto uma frase que me volta sempre à cabeça: “todo tempo de espera é longo, muito longo”. Esperar por respostas, quando se tem pressa, leva uma eternidade.


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Eu e minha mania de organização: semana passada, resolvi dar aquela limpa em uma parte dos CDs. Ver se todos estão dentro da caixa, reorganizar por gênero, tirar o que eu não quero mais para trocar em sebo, separar alguns para gravar em mp3... enquanto organizava, separei um para ouvir. Um dos preferidos, e que tem uma história especial. Um dia, quando morava em Londres, voltava para casa a pé da estação do metrô. Desci em Turnpike Lane, que era o caminho mais longo, mas como o dia estava bonito – coisa muito rara na Inglaterra – resolvi andar mais. Passei pela loja de CDs que havia no caminho e onde eu evitava saracotear, o local era muito tentador para o orçamento de uma estudante bolsista. Naquele dia, não deu. “Come fly with me” inundava a calçada na voz inconfundível de Frank Sinatra. Ah, foi por isso que o sol saiu, pensei. Fui arrastada pra dentro da loja. Os vendedores – três jovenzinhos que invariavelmente ouviam bandas novas, alternativas ou o mais puro classic rock – cantarolavam, com o olhar perdido no horizonte. Frank Sinatra pode fazer isso com as pessoas. Fiquei ali mexendo nos discos, sem ver nada, só pra ouvir um pouco mais. E então começou "Night and Day". "I´ve got you under my skin". Ai, meu Deus, Sinatra cantando Cole Porter. Não vou sair mais daqui, pensava. Gravação perfeita. Lembrei do meu pai – com quem aprendi a ouvir Sinatra, Nat King Cole Tony Benett. Não resisti. “Olá! Qual é o cd que está tocando?” “Ah, oi! (ele já me conhecia).”. E me mostrou a capa: Classic Sinatra. His great performances 1953-1960. “Beautiful!”, eu disse. “Yeah”, ele respondeu. Os outros dois vendedores concordaram com a cabeça. E sorriram. Outra raridade dos ingleses. “E quanto é?”, arrisquei. “Dezessete libras”. Caro. Dezessete libras, na época, eram uns setenta reais. Olhei o cd. Suspirei. “Worth every penny”, ele emendou - vale cada centavo. Valia mesmo. Pensei. Pensei. Saquei o cartão de crédito. Vou levar pro meu pai. Ele merece. (E era também quem recebia e pagava a fatura). Antes de voltar ao Brasil, no final daquele ano, comprei outro idêntico pra mim. É um dos discos que mais gosto. Não há dia cinza, tristeza, angústia ou espera que resista. Quem descobriu a fluoxetina certamente não ouvia Frank Sinatra.

Não está no disco, mas é uma das melhores interpretações dele. Delicie-se:
http://www.youtube.com/watch?v=7t3yjTTJFNI

Um comentário:

Anônimo disse...

Hahahahaha!
Era ele quem recebia e pagava a fatura. Boa, boa.