quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

ERA UMA VEZ ANA E MARIA...

Elas se conheceram no pré-primário. Tinham uns sete anos de idade e algumas características em comum. Não estavam na mesma sala, mas se viam no pátio do colégio e nas atividades extra-curriculares. Elas sempre gostaram das atividades extra-curriculares: o coral, o balé, os teatrinhos. Não sabem bem o porquê, mas nutriam uma simpatia mútua, mesmo sem conversarem muito. Ainda no primário, cada uma com sua turma, se destacavam na escola em peças infantis. Ana foi a galinha em “Os Saltimbancos”. Maria foi a narradora de uma peça do Monteiro Lobato. Não tinha vergonha e sabia, desde cedo, falar de improviso em público. Na 5ª série, quando começaram o ginásio, “caíram” na mesma classe e a amizade se estreitou. Vinham de famílias parecidas, tinham os mesmos interesses, riam das mesmas coisas. Naquele momento, deixavam de ser crianças e tornavam-se mocinhas. Passaram a ser inseparáveis.
Ana e Maria achavam que sabiam muito mais do que as garotas da idade delas. Elas ouviam as músicas da geração dos pais. Eram loucas por cinema. Liam livros que não eram obrigatórios na escola, pelo prazer de ler. Achavam-se sabidas. Queriam conquistar o mundo. Partilhavam as experiências da idade: o primeiro sutiã, a menarca, o primeiro amor... Maria e Ana eram muito românticas. Quando se apaixonavam, choravam ao som de baladas grudentas, desmanchavam-se em cartinhas que nunca chegavam aos destinatários, escreviam seus nomes com os sobrenomes dos pretendidos, imaginavam-se personagens de todas as grandes histórias de amor do cinema e da literatura. Nada para elas era pequeno. Elas eram diferentes. Sentiam-se especiais.
E, como dividiam um mundo só delas, passavam férias juntas, estudavam juntas, saíam juntas, não se desgrudavam. Mas, como a vida é dinâmica, a primeira grande transformação aconteceu quando Maria mudou de cidade. Era o início do colegial, o início de uma nova vida, em novas escolas, com novos amigos. Mesmo assim, continuaram inseparáveis. Escreviam cartas, se falavam pelo telefone (ainda não existiam o celular e a Internet), se encontravam nos finais de semana.
Nessa época elas sofriam muito. Sofriam com a distância, com as espinhas, com os novos amigos, com a família, com a queda do muro de Berlim, com o corte de cabelo, o corpo, as provas, os meninos. Ah, os meninos... Era a idade da efervescência hormonal. Continuavam se apaixonando como as mocinhas dos filmes e livros românticos, mas viveram as primeiras desilusões amorosas. Contavam tudo uma para a outra: o primeiro beijo, as paqueras, as primeiras saídas à noite, as festinhas. Sabiam ouvir. Sabiam partilhar. Precisavam dividir.
Nunca brigaram por moço algum. Bastava que uma se interessasse e a outra nem olhava duas vezes. Também tinham a sorte de gostarem de tipos diferentes. Tinham uma cumplicidade única. Combinavam como arroz e feijão, café e leite, Ana e Maria.
Às vezes discutiam. Discordavam. Mas não brigavam. Ou, se brigavam, se desculpavam em seguida. Começaram a ser mais independentes quando entraram na faculdade, curiosamente, a mesma. Maria entrou primeiro, já sabia o que queria. Ana tinha dúvidas, precisava escolher e entrou no ano seguinte. Fizeram cursos diferentes. Nessa fase, Ana apaixonou-se e teve seu primeiro namoro sério. Maria foi morar sozinha e não perdia uma só festa, ficava com vários meninos diferentes. Podiam ter opiniões e comportamentos diferentes, mas seguiam confidenciando tudo uma à outra: a primeira vez, as experimentações típicas da juventude, os anseios profissionais e os primeiros desafios de uma nova fase que se descortinava - a vida adulta.
Os anos se passaram. Nem tudo aconteceu como as meninas sonhavam. As duas foram bem sucedidas em suas carreiras, mas nenhuma se considera realizada profissionalmente. Casaram-se. Ana com uma grande paixão repentina. Maria com o mesmo namorado dos 20 anos. Ana se separou. Maria pensou em se separar inúmeras vezes. Em alguns momentos, sentiram-se distantes. Em outros, desejaram ter a vida da outra: Maria quis ter os relacionamentos e empregos variados, como Ana. Ana quis ter a estabilidade de Maria.
Moraram fora do país, mas não ao mesmo tempo. Maria na Europa. Ana nos Estados Unidos. Viajaram. Batalharam. Amadureceram. Expurgaram dores, culpas e medos na terapia. Engravidaram. Tiveram filhos. São comadres. Viveram momentos difíceis, frustrações, perdas, privações. Choraram. Riram. Gritaram, calaram. Viveram. E continuaram sempre lado a lado.
Esse ano, voltaram a dançar. Conseguiram um tempo só para elas e para compartilharem uma paixão. Se divertiram muito. Há alguns dias, encontrei Ana e Maria num bar, conversando e rindo. As duas estavam fazendo a retrospectiva anual juntas. Aproveitaram para fazer uma retrospectiva mais longa e lembraram de tudo, desde o pré. Dos amores, dos sonhos, das experiências.
No final, se abraçaram e desejaram ser felizes mais um ano. Continuam melhores amigas. Tanto quanto sempre, mais do que nunca. Hoje as duas são gente grande, mas conservam o coração puro e a esperança viva. E, claro, o que mais as une: o fato de serem, acima de tudo, duas sonhadoras...


* Para Iara.

6 comentários:

Anônimo disse...

Ai, que inveja!
Beijo

Iara Camargo disse...

Minha irmã... o que seria da minha vida sem você? Thanks for sharing, for being such a light... linda menina de cabelos cacheados, pele branquinha e apaixonada pelo cor de rosa... estudante de jornalismo idealista e desbravadora do velho continente... minha comadre, mãe do amado Gabe... minha irmã, amada amiga, para sempre. Essa é uma das únicas certezas que tenho na vida. E me sinto muito bem com isso. Te amo, from the bottom of my heart and soul... your sis´always, I.

Anônimo disse...

Olá minha querida amiga Rê, maravilhosa, sensível e tocante,adorei. Que em 2009 todos os seus projetos se tornem realidade. Aproveito para agradecer os gentis comentários em meu pequeno espaço de reflexão. Muita paz,harmonia e inspiração para vocês.

Forte abraço

caurosa.wordpress.com

Angelina disse...

Rê, fiquei emocionada... pq amo muito vcs duas!
Me sinto lisonjeada de ter um espaço para partilhar a vida com vcs... Espero que sempre falte um pãozinho junto com o café com leite, um filézinho no arroz com feijão!!!
Amiga, não canso de te admirar!
Bj no coração, Gê

Anônimo disse...

Maravilha!
^Gostei muito!!!

Parabéns pelo BLOG.

Aline disse...

Renatinha! Irmãzinha tão querida!!
Faz tanto tempo...
Hoje não deixei de ouvir musica brasileira, e, claro, pensei em vôce.
Te estava procurando em internet, em facebook, e ao final, procurando nos meus antigos mails de vc, encontrei (achei?) o endereço desse blog.
Adorei ler tantas coisas de vc, de ver que vc não cambiou muito e ainda segue sende a mulher idealista e rebelde (perdoa meu portugues, não tenho nenhuma certeza quando estou escrevendo!!)
Amanhã, vai ser o ultimo dia que eu vou morar em Paris, e até em França: no mês de Agosto, Guillaume (meu querido desde 7 anos) e eu vamos embora para morar em .... Nova-Caledônia!!! em Numea!!!! (so na outra parte do mundo para nos!!)
Bem. E em vez de preparar as coisas e de arrumar o quarto, e , ja sabe... Se chama "procrastination"!!
E prefiro passar tempo, lendo que vc têm o verdadeiro sentido da amistade. Eu me lembro muito da Iarâ, e das festas juninhas que passamos juntas, e de São Paulo, e de tudo tudo!!
Tenho taaaanta saudade minha Rê.

Perdoa o meu silencio desses ultimos anos, mas nunca nunca te esqueci... Espero que tudo esta otimo para você!
<3
Aline (FOS), a sua irmãzinha francesa de Aix en Provence!!