
Fazia tempo que não comprava feijão. Domingo, no supermercado, levei um susto. Cinco reais o pacote de meio quilo. É muita coisa, principalmente se considerarmos que o feijão é (era?) a base da alimentação do brasileiro.
Que o preço da comida subiu todo mundo já sabia – e eu me dei conta mais uma vez no último fim de semana. Dados do IBGE de 2002 já davam a alimentação como o segundo item mais pesado no orçamento das famílias brasileiras, atrás só de habitação. O que talvez as pessoas ainda não se dêem conta é o quão séria vai ficar a crise dos alimentos no mundo.
Sempre que algumas previsões são anunciadas – especialmente nos setores ambiental e social – há sempre quem diga que o prognóstico é alarmista. Foi assim com o relatório do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – sobre o aquecimento global em 2007. O mesmo aconteceu há um mês, no início de junho, quando o presidente da FAO - braço da ONU para agricultura e alimentação – declarou que as crise dos alimentos ameaça a paz mundial. O encontro da FAO, em Roma mostrou um futuro nada favorável ao problema.
O alerta – e eu acredito nele - é desesperador: o mundo precisa aumentar a produção de alimentos em 50% até 2030 para atender a demanda. Isso, claro, sem esquecermos de que hoje já são 862 milhões de pessoas em todo o mundo sem acesso à alimentação suficiente. Pense bem: são 862 milhões de pessoas sem ter o que comer direito. E, a não ser que você seja tão insensível a ponto de encher a sua pança sem se incomodar com o fato, você deve estar minimamente preocupado com essa questão. Ainda que você não se preocupe, esse problema vai afetar você, de alguma forma, em algum momento.
E então, o que fazer? O ministro das relações exteriores da Itália propôs, durante a reunião da FAO, a criação de um banco internacional de reservas de matéria-prima. Sei não. Isso não cheira bem. Quem controla? Quem produz? Quem se beneficia?
Talvez a questão não seja só produzir mais comida, mas aproveitar melhor a que já existe e é desperdiçada. Conheci, nos debates promovidos no ano passado pelo Prêmio Trip Transformadores, o trabalho da economista Luciana Quintão, criadora da ONG Banco de Alimentos, que recolhe comida que iria para o lixo e distribui entre quem precisa.
Mas não sabia que pegar comida do lixo é mais do que necessidade pra quem não tem outra saída: é filosofia dos adeptos de um movimento mundial de reaproveitamento de alimentos.
Os freegans defendem uma forma alternativa de se viver, consumindo o mínimo possível dos recursos do planeta. Além do óbvio – freegans não trabalham porque não estabelecem relações econômicas, moram por aí, reutilizam roupas, utensílios, etc, os freegans também buscam no lixo a comida que vão por na boca.
A Revista Trip de abril traz uma matéria interessantíssima sobre o tema. A matéria já começa com um dado impressionante: o Brasil desperdiça 26 milhões de toneladas de alimentos por ano. Um grupo de jovens de classe média, do grupo Ativismo ABC, se reúne uma vez por semana no fim da feira para almoçar as sobras de comida das barracas. Não fazem isso porque precisam, mas por ideologia. No Ceasa – Ceagesp, em São Paulo, o final da feira também é freqüentado por catadores. Mas ali, há muita gente que só tem comida na mesa porque pega resto. Na França, o biólogo Alain Fonteneau só se alimenta do que “cata” no lixo. Ele se tornou personagem de um filme da cineasta francesa Agnès Varda. Eis o que ele diz na matéria: “Li em um livro que com tudo o que produzimos podemos alimentar o dobro da população do planeta. Um dia desses, um capitalista disse que, quando formos 8 bilhões no mundo, teremos de produzir ainda mais alimentos. Para quê? Hoje somamos 6 bilhões, temos condições de alimentar 12 bilhões e há 850 milhões de malnutridos. É paradoxal!”.“Se abaixar não é se rebaixar”, resume Alain. “Quando nos agachamos para pegar os alimentos há o olhar dos outros, e isso não é fácil no começo. Mas, depois que se entra nesse sistema, não nos importamos mais com isso”, diz, ao colocar a mochila carregada de alimentos nas costas e sair caminhando com seus vistosos tênis com amortecedores... achados no lixo. (Revista Trip, ed.164)
Pegar comida do lixo não é solução para o problema da fome no mundo. Mas discutir formas de evitar o desperdício e o reaproveitamento da comida é sim um bom caminho para enfrentar a questão. Pena que, perdidos entre políticas tarifárias, biocombustíveis, subsídios, políticas de importação e exportação, os dirigentes de diversos países que se reuniram no encontro da FAO não olharam para vias mais simples e, talvez, mais eficazes para lidar com esse enorme problema.
Que o preço da comida subiu todo mundo já sabia – e eu me dei conta mais uma vez no último fim de semana. Dados do IBGE de 2002 já davam a alimentação como o segundo item mais pesado no orçamento das famílias brasileiras, atrás só de habitação. O que talvez as pessoas ainda não se dêem conta é o quão séria vai ficar a crise dos alimentos no mundo.
Sempre que algumas previsões são anunciadas – especialmente nos setores ambiental e social – há sempre quem diga que o prognóstico é alarmista. Foi assim com o relatório do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – sobre o aquecimento global em 2007. O mesmo aconteceu há um mês, no início de junho, quando o presidente da FAO - braço da ONU para agricultura e alimentação – declarou que as crise dos alimentos ameaça a paz mundial. O encontro da FAO, em Roma mostrou um futuro nada favorável ao problema.
O alerta – e eu acredito nele - é desesperador: o mundo precisa aumentar a produção de alimentos em 50% até 2030 para atender a demanda. Isso, claro, sem esquecermos de que hoje já são 862 milhões de pessoas em todo o mundo sem acesso à alimentação suficiente. Pense bem: são 862 milhões de pessoas sem ter o que comer direito. E, a não ser que você seja tão insensível a ponto de encher a sua pança sem se incomodar com o fato, você deve estar minimamente preocupado com essa questão. Ainda que você não se preocupe, esse problema vai afetar você, de alguma forma, em algum momento.
E então, o que fazer? O ministro das relações exteriores da Itália propôs, durante a reunião da FAO, a criação de um banco internacional de reservas de matéria-prima. Sei não. Isso não cheira bem. Quem controla? Quem produz? Quem se beneficia?
Talvez a questão não seja só produzir mais comida, mas aproveitar melhor a que já existe e é desperdiçada. Conheci, nos debates promovidos no ano passado pelo Prêmio Trip Transformadores, o trabalho da economista Luciana Quintão, criadora da ONG Banco de Alimentos, que recolhe comida que iria para o lixo e distribui entre quem precisa.
Mas não sabia que pegar comida do lixo é mais do que necessidade pra quem não tem outra saída: é filosofia dos adeptos de um movimento mundial de reaproveitamento de alimentos.
Os freegans defendem uma forma alternativa de se viver, consumindo o mínimo possível dos recursos do planeta. Além do óbvio – freegans não trabalham porque não estabelecem relações econômicas, moram por aí, reutilizam roupas, utensílios, etc, os freegans também buscam no lixo a comida que vão por na boca.
A Revista Trip de abril traz uma matéria interessantíssima sobre o tema. A matéria já começa com um dado impressionante: o Brasil desperdiça 26 milhões de toneladas de alimentos por ano. Um grupo de jovens de classe média, do grupo Ativismo ABC, se reúne uma vez por semana no fim da feira para almoçar as sobras de comida das barracas. Não fazem isso porque precisam, mas por ideologia. No Ceasa – Ceagesp, em São Paulo, o final da feira também é freqüentado por catadores. Mas ali, há muita gente que só tem comida na mesa porque pega resto. Na França, o biólogo Alain Fonteneau só se alimenta do que “cata” no lixo. Ele se tornou personagem de um filme da cineasta francesa Agnès Varda. Eis o que ele diz na matéria: “Li em um livro que com tudo o que produzimos podemos alimentar o dobro da população do planeta. Um dia desses, um capitalista disse que, quando formos 8 bilhões no mundo, teremos de produzir ainda mais alimentos. Para quê? Hoje somamos 6 bilhões, temos condições de alimentar 12 bilhões e há 850 milhões de malnutridos. É paradoxal!”.“Se abaixar não é se rebaixar”, resume Alain. “Quando nos agachamos para pegar os alimentos há o olhar dos outros, e isso não é fácil no começo. Mas, depois que se entra nesse sistema, não nos importamos mais com isso”, diz, ao colocar a mochila carregada de alimentos nas costas e sair caminhando com seus vistosos tênis com amortecedores... achados no lixo. (Revista Trip, ed.164)
Pegar comida do lixo não é solução para o problema da fome no mundo. Mas discutir formas de evitar o desperdício e o reaproveitamento da comida é sim um bom caminho para enfrentar a questão. Pena que, perdidos entre políticas tarifárias, biocombustíveis, subsídios, políticas de importação e exportação, os dirigentes de diversos países que se reuniram no encontro da FAO não olharam para vias mais simples e, talvez, mais eficazes para lidar com esse enorme problema.
QUER SABER MAIS?
Acompanhe o trabalho das Nações Unidas no setor através do site da FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations: http://www.fao.org/
Leia a matéria da Trip na íntegra em: http://revistatrip.uol.com.br/165/xepa_lixo_abaixa/home.htm
Conheça o trabalho da ONG Banco de alimentos em: http://www.bancodealimentos.org.br/
Entenda melhor o universo dos freegans em:
http://freegan.org.uk/
http://freegan.info/
Acompanhe o trabalho das Nações Unidas no setor através do site da FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations: http://www.fao.org/
Leia a matéria da Trip na íntegra em: http://revistatrip.uol.com.br/165/xepa_lixo_abaixa/home.htm
Conheça o trabalho da ONG Banco de alimentos em: http://www.bancodealimentos.org.br/
Entenda melhor o universo dos freegans em:
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